“Ser feliz, bem feliz”: quando as bandeirinhas de São João abrem espaço para a diversidade
Os encontros dos ritmos de quadrilhas com o orgulho de ser quem se é e amar quem quiser
Por: Luiza Azeredo e Thalita Alencar
Em junho, comidas à base de milho, roupas quadriculadas e decoração caipira anunciam: é São João outra vez! Mas, além dessa tradição centenária, esse mês também celebra a existência de corpos LGBTQIAPN+, que, inclusive, muitas vezes encontram acolhimento na cultura junina. O fazer artístico das típicas quadrilhas, por meio das danças, maquiagens e adereços característicos, permite que esses sujeitos encontrem liberdade para expressar suas identidades à maneira que desejarem.
Legado familiar e a “coisa de gente”
Júnior do Vale, natural do município de Castanhal, conta que sua mãe foi a principal responsável por introduzi-lo a esse universo de forma ativa, através da fundação da quadrilha “Tradição Junina”, em 2009. A trajetória de Júnior como dançarino começou ali, hobby que, mais tarde, se tornou ofício. Graduado em Dança pela Universidade Federal do Pará (UFPA), suas maiores referências na área sempre foram figuras femininas próximas, a exemplo de sua irmã, que saía como Miss na época dos festejos. Como um homem gay, cresceu sendo uma criança afeminada e reconhece o espaço de privilégio que ocupa, já que, no meio em que vivia, os olhos das pessoas eram muito mais voltados para o artístico do que para o preconceito. Apesar disso, tem noção do crivo social negativo que paira sobre a cultura junina.
“Se tratando do olhar heterossexual da coisa, respinga aquele machismo de falar ‘isso é coisa de viado’, ‘isso é coisa de gay’. E sim, é coisa de gay, é coisa de hétero, de branco, de magro, de gordo. É coisa de gente”, diz ele.
Brincante da quadrilha “Raízes do Sol” há sete anos, ele também destaca a brincadeira “Bonecas de São João”, que nasceu nela de forma engraçada, composta, majoritariamente, por mulheres trans e homens cis gays que se montam para dançar. Além do lado humorístico, esse movimento possui um viés de conscientização, dada a visibilidade concedida aos rostos da “comunidade LGBT de ‘A a Z’”, denominação divertida adotada por Júnior. “Existem as mãos, corpos e ideias dessas pessoas, que compõem a cultura de forma que a gente talvez não perceba ou não enxerga por não estar inserido, porque para nós é um lugar de libertação”, completa.

Miss Diversidade: o brilho e os desafios de ocupar a quadra
O Arraial de Todos os Santos, realizado pela Fundação Cultural do Pará (FCP) , é uma das maiores festividades de São João da região Norte. Nele acontece o Concurso Estadual de Quadrilhas, competição que os amantes do festejo junino sonham em participar e serem premiados, uma vez que carrega consigo um peso inestimável e representa a força cultural da tradição junina paraense.
Ainda mais profunda que a magnitude da festa e sua simbologia, está a relação com a diversidade no estado do Pará. O Arraial abre espaço para a população LGBTQIAPN+ ser integrada ao evento, por meio da categoria Miss Caipira da Diversidade. Presente na programação do festejo desde 2003, ela visa enaltecer diferentes identidades, avaliando não apenas a beleza, mas também a expressão artística e a trajetória dos participantes. Por meio da junção da arte, cultura e ação social, esse segmento permite que a comunidade, em especial homens gays que performam uma figura feminina, tenha um local para se expressar sem medos e amarras, com liberdade para serem o que quiserem e, acima de tudo, terem orgulho da própria sexualidade e essência.

Ávilla Araújo conta como se sentiu ao participar pela primeira vez como Miss Diversidade pela quadrilha “Balancê Junino” este ano. Ela já havia dançado de brincante em 2025, mas nada se compara à sensação de se apresentar como miss. Destaca o sentimento de realização e gratidão que tomou conta de si após a dança, ao realizar um sonho de criança. “Para mim, é de uma alegria sem tamanho, porque eu cresci assistindo à miss caipira, miss negritude, miss simpatia e eu sempre tipo assim: ‘Ai, será que um dia eu vou conseguir dançar como uma miss?’ E hoje, poder ter um traje feminino e disputar com outras misses é muito gratificante.” Como nem só de glamour vive esse universo, Ávilla também aponta as dificuldades de sustentar estar em tal categoria, principalmente no quesito monetário; porém, quando entra em quadra, “é só luz.”
Assim, entre o compasso firme das coreografias e a correria para que todos os quesitos sejam perfeitamente cumpridos, existe uma comunidade que funde suas cores à vivacidade da chita a fim de resistir. Essa é uma prova de que a tradição não precisa ser um espelho do passado fincado em estruturas de opressão, mas pode virar bússola para um futuro onde cabe toda a diversidade. Sob as bênçãos dos santos de junho, qualquer um pode vestir seu melhor traje e, como canta Alcymar Monteiro, “ser feliz, bem feliz.”



Amei o tema !! A expressão artística sempre foi palco para demonstrar o que sentimos ou o que representamos. A matéria destrinchou com clareza os diferentes significados. 🔥❤️