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A cura que nasce no quintal: a medicina tradicional amazônica.

limiaresrevista
6 de mar.
4 min de leitura

Comunidades no Pará mantêm vivas práticas ancestrais capazes de salvar vidas


Por: Alice Ferreira, Édy Santos e Juliana Sousa



Nas comunidades do Norte da Amazônia, o cuidado com a saúde vai além de postos médicos e farmácias. O tratamento nasce nos quintais, às margens dos rios e na memória dos mais velhos. Chás, garrafadas e benzimentos permanecem como primeira alternativa para tratar enfermidades cotidianas. Esses saberes compõem uma medicina tradicional fundamentada na convivência direta com a natureza,  preservada por ribeirinhos, quilombolas e indígenas, e transmitida oralmente entre gerações de parteiras, benzedeiras e curadores.


Nessas comunidades, a saúde é entendida de forma mais ampla, envolvendo o corpo, o bem-estar espiritual e a relação com o ambiente. Além das plantas medicinais, muitos tratamentos incluem orações e gestos simbólicos que reforçam a fé, as tradições, a memória, a ancestralidade e cultura dos nossos antepassados, que viviam e sobreviviam da natureza e do que ela nos oferece até os dias atuais. 


 Maria de Jesus Nascimento  (dona Minmin), da comunidade quilombola Maracujá que fica localizada no município do Acará, relata que desde a juventude utiliza plantas que ajudam a curar e aliviar doenças, como amapá, gergelim, andiroba, além de banhos de mãe-viva, verônica, e arruda. Seu repertório inclui chás de boldo e alecrim, emplastos de aninga e garrafadas para o pós-parto e todo esse conhecimento foi herdado de sua mãe e avó, onde sua avó também era parteira da comunidade e carregava um conhecimento ancestral de décadas, que foi repassado para as futuras gerações.


Mesmo com o avanço da medicina formal, as práticas tradicionais resistem inclusive nos centros urbanos. Diante de sintomas leves, o recurso inicial costuma ser chás, xarope caseiro ou o benzimento, em que Dona Minmin relata sobre o seu filho “o meu filho mais velho não gosta de médico, ele ia quando era bebê que eu levava”. Mais do que autocuidado, essas práticas carregam identidade cultural. O horário da colheita, o modo de preparo e o respeito à natureza fazem parte do processo de cura, conferindo à erva um significado que une tradição, fé e experiência.


A viabilidade econômica e a dificuldade de logística também sustentam o uso da erva. Dona Minmin ressalta que a escassez de transporte e o alto custo forçaram a comunidade a buscar autonomia medicinal, 


“eu aprendi a fazer cura na garganta porque tive filho e a criança ficava doente e naquela época não tinha posto de saúde aqui”.

Em áreas isoladas, onde o acesso a serviços de saúde é difícil por causa da distância e do transporte, a medicina tradicional atua como atendimento primário; busca-se o hospital apenas em casos de urgência ou ineficácia do tratamento caseiro.


As ervas não são usadas apenas como remédios, elas são usadas para fazer banhos de alívio da mente e do corpo. Desse modo, são utilizadas por curandeiros para banhos de descarrego e proteção espiritual, combatendo males como o "quebranto". Nilton de Souza Nascimento (Niltinho), da comunidade quilombola Itapuãzinho do município do Acará, descreve que faz rezas e “trabalhos” com o uso das ervas, passando cuidados caseiros que as pessoas precisam tomar para ter a cura do seu corpo, cuidados esses que foram repassados por  gerações e que são praticados até os dias atuais, com o intuito apenas de ajudar pessoas,  ele relata que: “eu, meu cunhado e uns colegas nossos que trabalham, a gente faz porque quer, Deus deu um dom para ajudar o próximo.”


Nesse contexto, destaca-se a “cura da garganta”,  prática ancestral usada para aliviar dor, inflamação e dificuldade para engolir, por meio de chás mornos, xaropes caseiros e benzimentos, reunindo elementos naturais e espirituais em um mesmo cuidado. Elizete Braga, guardiã desse saber e moradora da comunidade quilombola de Gurupá, no município de Cachoeira do Arari - Ilha do Marajó,  assumiu o ofício pela necessidade de salvar a vida do próprio filho quando o tio, antigo curador, não podia mais exercer a função. “Eu iniciei com o meu filho e hoje eu curo de todo mundo, tanto crianças, quanto jovens e idosos” [...]“Eu me sinto muito importante. Me sinto orgulhosa, da maneira que eu posso ajudar muitas pessoas”  relatou Elizete.


Em relato, Dona Minmin também fala sobre o processo de “curar a garganta” que realiza em pessoas da comunidade quando é preciso algo rápido e eficaz e, no relato, desvenda segredos que aprendeu com seus antepassados de como faz para saber se precisa de cura e como curar.


"A gente conhece quando tá inchado aqui pelo braço, mexe assim o braço e se tiver alguma glandulazinha aqui é porque tá inchada e lá dentro a gente cura amassando de um lado e de outro, aí se tiver, tem uns que tem aquela coisa que tem aquela bolinha de sangue, daí ela arrebenta e pronto, desincha a garganta."

Esse sistema de cura promove uma relação de sustentabilidade com a natureza, pois os insumos como azeite doce, mel e óleos de andiroba e copaíba utilizados nesse processo provêm das matas amazônicas e são extraídos pelas próprias comunidades, garantindo uma relação de respeito entre conhecimento tradicional e o meio ambiente. 


Apesar de sua relevância, esses saberes enfrentam o risco de desaparecimento devido ao desinteresse das novas gerações. A preservação dessas práticas é essencial para a manutenção da identidade paraense e amazônica. Em um mundo cada vez mais acelerado e tecnológico, esses relatos reafirmam que a Amazônia é uma fonte de conhecimento e guarda em suas comunidades saberes e práticas ancestrais que não podem ser esquecidas, pois estão registradas na memória viva do seu povo.




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