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Tempo e destino

Uma conversa com Nilson Chaves

Texto: Anderson Santos, Leandro Corrêa e Samantha Miranda Corrêa

Entrevista: Anderson Santos e Kayla Beatriz

Fotos: Hugo Silva e Rayane Ferreira

Sentar-se à frente de Nilson Chaves é como ancorar o barco em uma beira de rio ao entardecer. Ele chegou antes do combinado. Não por urgência, mas porque há algo de generoso em quem se antecipa ao encontro. Logo percebemos que não há pressa em sua presença. O tempo parece obedecer à outra cronologia, a dos afetos e das águas.

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Essa serenidade não é acaso: foi lapidada. Ao longo de 55 anos de carreira, Nilson consolidou-se como uma das vozes mais marcantes da música feita na região Norte — um timbre moldado na transição entre o rio e a cidade, entre a tradição amazônica e a contemporaneidade. Sua obra construiu uma geografia ausente dos mapas, mas inscrita na experiência de quem reconhece que a Amazônia é, antes de tudo, feita de pessoas, vivências e limiaridades.

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Essa relação com a própria origem, porém, nem sempre foi tão certa. Ao se mudar para o Rio de Janeiro na juventude, levou consigo as composições feitas em Belém, e decidiu escondê-las.

“Eu me recusava a mostrar o que eu havia produzido em Belém, porque achava que o Rio não entenderia essa música. Eu mostrava apenas o que eu produzia lá.”

A mudança começou de forma inesperada. Uma amiga coreógrafa alemã, ao ouvir suas canções guardadas, reconheceu nelas o que ele próprio ainda hesitava em assumir. “Ela falou que eu precisava cantar aquilo, pois era a minha verdade. Ela me pediu para fazer um show com essas músicas para uns amigos de um grupo de dança americano que havia acabado de chegar no Rio. Foi naquele momento que eu entendi que precisava cantar não só o Pará, mas a Amazônia.”

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Desde então, tudo mudou. Ao assumir as canções antes escondidas, Nilson passou a cantar aquilo que o constituía, o que permitiu que ele se tornasse, de fato, o artista que é. Cantar a Amazônia o conduziu a um marco histórico. Em 2000, Nilson foi indicado ao Grammy Latino, tornando-se o primeiro artista da Amazônia a alcançar o feito. “Eu saí de Nova York para Los Angeles, onde seria o Grammy. No avião que eu estava, viajavam também Shakira, Christina Aguilera, Ricky Martin e Roberto Santana.” Ao desembarcar, acreditou que a imprensa aguardava os nomes já consagrados internacionalmente. “Quando chegamos em Los Angeles, ao descer do avião e ir em direção à saída, eu percebi que a imprensa americana estava toda lá fora.” A surpresa veio quando foi cercado e entrevistado. “Ao final da entrevista, perguntei ao tradutor: ‘mas por que eu? Vocês nem me conhecem’. O tradutor falou: ‘Nilson, é a primeira vez que o Grammy indica um artista da Amazônia’. Ou seja, não era o Nilson Chaves, era um artista da Amazônia.”​

A Arte de Permanecer

Com o passar dos anos, Nilson passou a compreender que sua trajetória não se dissocia do lugar de onde veio, e que ocupar espaços também implica usar a própria visibilidade para reforçar o valor de ser nortista. Ao falar de identidade, faz questão de deslocar o eixo: mais do que se afirmar paraense, escolhe se dizer amazônida. Para ele, a palavra não limita, expande. 

“Quando digo que sou amazônico, eu fico muito maior.”

Esse entendimento, amadurecido ao longo da carreira, atravessa sua forma de se posicionar no mundo. “Nós não temos ideia da nossa importância enquanto amazônidas. Somos muito mais do que paraenses. Vivemos na região mais cobiçada do mundo. Hoje, como sei que tenho voz no Brasil e em outros países, enfatizo muito isso. É sobre identidade. Orgulho de ser o que é”.

Ao refletir sobre as barreiras impostas pelo preconceito regional, Nilson localiza na falta de conhecimento a raiz do problema. Para ele, cantar a Amazônia sempre significou saber que enfrentaria resistências, sobretudo na mídia brasileira. Ainda assim, decidiu insistir. “Quando decidi cantar sobre a nossa região, eu sabia que enfrentaria dificuldades na mídia brasileira, mas eu também sabia que poderia contribuir. Consegui furar esse bloqueio, que chamo de preconceito do desconhecido.”

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O reconhecimento veio também de fora. Durante oito anos, Nilson realizou turnês pela Europa, onde sua obra encontrou escuta atenta. “Críticos já apontaram Sabor Açaí como uma das 100 maiores composições do mundo.” Para ele, o contato direto transforma a percepção: “Ao chegarem aqui, as pessoas têm convivência com a floresta, com o ribeirinho e com coisas que não se encontram em outro lugar. Percebem a riqueza e a beleza dessa região”.

Se o mercado musical se transforma rapidamente, a obra de Nilson parece encontrar outras formas de permanência. Ao invés de perseguir fórmulas, ele observa a troca entre gerações acontecer de maneira quase silenciosa. “Recentemente, fiz um show para mais de cinco mil pessoas na Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Havia muitos jovens. Eles falavam que ouviam minhas músicas desde criança, pois os pais mostravam para eles.” É dessa transmissão afetiva que ele retira a certeza da própria longevidade: “Permaneço vivo enquanto artista por conta disso. É algo muito especial na minha história”. Essa vitalidade também se manifesta no lançamento mais recente, Amazônico Brasileiro, projeto com 13 faixas, entre elas Planeta Vida e O Nome do Amor, já disponível nas plataformas digitais.

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Mesmo atento à importância da cultura, Nilson chegou a uma constatação amarga ao aceitar um cargo público em sua terra natal. “Politicamente, ninguém tem interesse em cultura no Brasil. São poucos aqueles que se importam.”

A crítica se amplia para um cenário global marcado por conflitos e retrocessos. “Vivemos em um planeta castigado pelas guerras. Estamos próximos de conflitos ainda maiores, comandados por líderes loucos. Não querem saber de cultura, machucam os profissionais da saúde e da educação.” Essa percepção atravessa também sua criação artística. “O compositor precisa estar atento a tudo isso. É como diz o meu amigo Celso Viáfora: ‘no dia em que eu não tiver nada pra dizer, eu paro de compor’. O que me interessa é contribuir, não compor por compor”.

Se as inquietações sobre o mundo atravessam sua fala, elas também encontram forma na música. Em Olhando Belém, Nilson desloca o olhar do conflito global para o território íntimo, cantando os seres, as paisagens e os contrastes que moldam a identidade da nossa cidade e da região. Algumas dessas imagens não foram passageiras e tornaram-se paisagens afetivas, que persistem no tempo. “Permanece muita coisa, e acho que mais fortalecida ainda, mais enriquecida ainda”, afirma.

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A canção atravessa os limiares entre o rio e a cidade, o ancestral e o urbano, o indígena e o contemporâneo. Uma Amazônia que observa a canoa descer o rio enquanto um avião risca o céu. Para Nilson, essa convivência não é conflito, é resistência. “É impressionante como nós, amazônicos, conseguimos fechar uma resistência sobre a nossa identidade, mesmo que ela seja uma coisa que esteja no nosso inconsciente. Mas nós temos orgulho de sermos daqui. Lá fora ninguém tem o que nós temos aqui, ninguém, só nós. E isso, inconscientemente, nos fortalece nesse sentido.”

Durante a entrevista, foi perceptível o quanto Nilson valoriza as amizades que contribuíram e contribuem para formar o grande artista que é. A música “Tempo e destino”, composta em parceria com Vital Lima, fala sobre a amizade de forma profunda. “Essa música tem uma mágica muito especial em relação à amizade. Às vezes, um amigo parece mais importante do que o próprio amor romântico, que também é importante. Amizade é uma coisa que não te cobra, não tem ciúme, não te substitui nunca. Eu tenho amigos que conheci há sessenta anos e outros, há três. O amigo não se pesa pelo tempo de existência, pesa-se pela intensidade de se doar.”

Em sua história, Nilson Chaves permanece como quem compreende o ritmo das cheias. Nos igapós, mesmo quando a água encobre os troncos, as copas continuam visíveis. Assim são as memórias que ele carrega: não se impõem, mas persistem. Quando a conversa cessa, sua voz ainda ecoa, correndo como os rios que nunca param, mesmo quando já não os vemos.

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