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Ancestralidade no cotidiano: a influência cultural das feiras de Belém

limiaresrevista
27 de fev.
5 min de leitura

Atualizado: 6 de mar.

As feiras na capital paraense simbolizam não só a economia, mas também uma força cultural e ancestral que se mantém até hoje


Por: Aimê F. Falcão, Ana Júlia Pantoja e Wener Ribeiro



Belém do Pará, considerada por muitos como “capital da Amazônia”, também é conhecida pela proximidade com a natureza, por uma cultura única e pela sua forte ligação com seus antepassados. Além disso, na cidade também opera uma enorme quantidade de feiras e mercados, que não só têm influência econômica, mas cultural e ancestral. Afinal, o comércio dita o ritmo e os costumes de bairros inteiros, que continuam, mesmo sem perceber, a usar da sabedoria dos seus ancestrais no cotidiano de venda e consumo.


Nessa rede complexa, a população local encontra tanto sua fonte de renda como seu espaço de sociabilidade, que funciona como distração não só para os feirantes, mas também para os consumidores. Entre a entrega dos produtos, a organização das bancas e a venda, que pode se estender das 5h às 21h, os feirantes buscam formas de se entreter sem se desligar do trabalho. Dina Souza, feirante da banca de frutas da Feira do Cordeiro/Tapanã, ressalta:


“Além da renda, tem até uma distração. A gente, que trabalha na feira, não tem muito tempo para estar saindo, para se divertir, não tem tempo para nada. Então aqui já trabalho e um pouco de distração também.”

Nesse cenário, o entretenimento surge das pequenas coisas: de brincadeiras entre os vizinhos de banca, fofocas dos clientes e do brega que toca nas rádios no intervalo dos anúncios de preço. Embora a rotina seja marcada por sacrifícios, os feirantes encontram na feira o seu gosto pela vida. Dona Francisca, vendedora de temperos há 32 anos na mesma feira, destaca esse sentimento: “Eu gosto de envelhecer aqui. Eu gosto. Se eu não ficar aqui, eu fico doente dentro de casa. Já tentei ficar em casa para não trabalhar, mas aí eu fico mal. Eu tenho que vir para cá”.


Envelhecer nesse ambiente também carrega seus privilégios. Entre a repetição dos dias e o movimento constante, esses espaços tornam-se uma escola, ali se aprende a lidar com os clientes, a vender, a reconhecer o tempo certo dos produtos e a manejar saberes construídos na experiência. O cotidiano da feira é atravessado por vida em todos os seus aspectos, diferente da lógica fria dos grandes mercados, e é nesse ambiente que a cultura se repassa, na forma de alimento, das bancas às mesas. 


(Reprodução: Tiago Brandão)
(Reprodução: Tiago Brandão)

  A farinha de mandioca e o açaí, por exemplo, são pilares culturais e econômicos para os residentes, com origens indígenas, são duas das maiores fontes de renda para os moradores de ilhas ao redor da capital paraense. Alimentos de sobrevivência, história, resistência e memória, desde a colheita até a chegada nas mesas das famílias.


Belém também possui o maior mercado a céu aberto da América Latina: o Ver-o-Peso. Inaugurada em 1625, a antiga casa de “Haver-o-Peso”, erguida pela força de trabalho negra escravizada às margens da baía do Guajará, funcionava como posto de arrecadação de impostos e ponto de exportação de produtos da floresta amazônica e, hoje, é uma feira conhecida e prestigiada mundialmente. Para os residentes, no entanto, é mais do que apenas uma feira, é o coração pulsante que distribui ensinamentos, medicamentos, alimentos e experiências. O espaço, então, transcende o ato de compra e venda, e se consolida como um ambiente marcado pela circulação de saberes socioculturais e sua ligação viva com o passado.

Contudo, o vínculo estabelecido com a feira popular não se limita ao Ver-o-Peso, pois há cerca de 56 desses espaços cadastrados na Secretaria Municipal de Economia (SECON), distribuídos nos bairros periféricos de Belém, cada uma com suas particularidades e histórias próprias. O Porto da Palha, por exemplo, às margens do Rio Guamá, foi um local estratégico para que a população negra pudesse fugir da escravidão, e ponto de comércio clandestino onde indígenas, ribeirinhos e quilombolas conseguiam vender seus produtos. Desse passado marcado por resistência, surge hoje uma das feiras mais populares da capital.

          A sabedoria e os costumes adquiridos nas feiras não ficam retidos aos limites da cidade, em 2025 houve um crescimento no turismo em Belém, segundo a Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa). Um dos principais fatores que atraem tanto olhares nacionais como internacionais é a diversidade cultural e a riqueza da culinária amazônica. Durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 30), a cidade contou com chegada de mais de 1 milhão de visitantes para participar do evento e conhecer a cultura amazônida, o Ver-o-Peso foi um dos pontos que mais recebeu visitantes e turistas, levando todas essas experiências mundo afora. Vendedores e trabalhadores dessas feiras perceberam o crescimento das visitas e compras nos mercados populares, não somente no mais famoso, mas em todos os outros pontos de venda.

“[...]às vezes tem bastante gente de fora da cidade que vem aqui só para olhar e passear. Tem outras pessoas que vêm para comprar, e tem gente que trabalha na feira já para ganhar o seu "pão de cada dia". expõe Eliton Oliveira, trabalhador a mais de dois anos na feira do Porto da Palha. 


(Reprodução: Aimê Falcão)
(Reprodução: Aimê Falcão)

Esse crescimento reforça a importância das feiras para a cidade de Belém, por repassar informações, práticas e costumes, fortalecendo a conexão que a população tem com a ancestralidade e com uma cultura inerente na sociedade paraense. Assim, essa representação não está somente na venda de ervas ou banhos de cheiros que ocorrem nessas feiras, mas na própria culinária paraense, um dos pontos mais marcantes para a cultura e para a cidade.



A ancestralidade das feiras pode não estar aparente até mesmo para quem vive dela, mas se mantém no repassar de costumes e saberes de pais para filhos, nas crenças de quem continua a comprar banhos de cheiro todo final do ano, comunicando-se com os encantados, ou até mesmo na compra da maniva para preparar a maniçoba do Círio. É o que explica a Profa. Dra. Marina Ramos, autora do livro “As Formas Sociais do Gosto: Sensorialidades e Sensibilidades na Feira do Guamá”:


“Na maior parte do tempo, a ancestralidade presente nas feiras não é vivida pelo paraense como ‘ancestralidade’. Ela não aparece nomeada, tematizada ou explicada. Ela opera de forma silenciosa, incorporada aos hábitos, aos gestos, às preferências e às rotinas. Está no modo de escolher o peixe, no tipo de farinha que se compra, na banca em que se confia, no horário em que se frequenta a feira (...) Aprende-se a gostar antes de aprender a explicar”.

Logo, longe de ser uma herança estática, o legado das feiras de Belém se atualiza diariamente, nos saberes compartilhados e na conexão íntima entre pessoas, produtos e natureza. Em meio às transformações urbanas e às pressões do mercado, as feiras seguem como lugares de permanência e resistência, garantindo que memórias coletivas não sejam apagadas, mas reinventadas a cada geração. Preservá-las é reconhecer que ali não circula apenas mercadorias, mas modos de vida que sustentam a identidade cultural paraense.


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