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As mãos e vozes que constroem o enredo do samba

limiaresrevista
27 de fev.
5 min de leitura

Atualizado: 6 de mar.

O papel vital dos barracões belenenses na preservação do samba e na construção da dignidade comunitária evidencia  o esforço coletivo que supera a falta de apoio para transformar suor em arte e vidas na periferia de Belém


Por: Bruna Costa, Jamilly Amorim, Yuriel Souza



Enredos cantados em uma só voz e batuques fazem estremecer o coração das escolas de samba de Belém. Em meio a tanto glamour, o trabalho fundamental de confecção de fantasias e adereços costuma passar despercebido. São meses de preparação intensa para apenas 60 minutos de desfile. Uma história que não é contada apenas pelos carros alegóricos e fantasias exuberantes, mas, sobretudo, pelas mãos que constroem essa grande festa.


O Carnaval em Belém tem raízes profundas, com manifestações populares registradas desde o século XVII. A transição para o formato atual das escolas de samba em Belém aconteceu sob a influência de um morador do bairro do Jurunas, Raimundo Manito, na década de 1930, que importou um modelo do Rio de Janeiro. Ao longo do tempo, a festa se transformou e, nos anos 2000, a Aldeia Cabana de Cultura Amazônica Davi Miguel se consolidou como o sambódromo oficial dos desfiles da capital. Essa trajetória é marcada não apenas pelo espetáculo na avenida, mas também pelo trabalho coletivo que sustenta cada apresentação.


A engrenagem do Carnaval belenense envolve costureiras, aderecistas, músicos, produtores, artesãos e fornecedores de materiais, que dedicam tempo, trabalho e afeto para que a escola chegue completa à avenida. Nos bastidores, o empenho coletivo é o que mantém viva a tradição do samba na cidade. Jamil Mouzinho, Diretor de Carnaval e ex-presidente da Escola de Samba Quem São Eles, destaca o papel importante das pessoas que trabalham nos barracões e o esforço cheio de amor para fazer com que cada peça produzida seja especial para o desfile.


“O Carnaval de uma escola de samba é feito com muitos braços, com muitas mentes e com muitos corações. As pessoas que estão envolvidas no processo de construção do Carnaval de uma escola de Samba são apaixonadas por aquilo que fazem”, diz Jamil.

Sua fala afirma a herança cultural irradiada entre gerações no bairro periférico da capital: uma dedicação que vai muito além da técnica, em que o saber dos mais antigos encontra o entusiasmo dos mais jovens, onde o esforço ignora o cansaço e as dificuldades financeiras. Cada mão que produz uma peça ou molda uma estrutura, carrega a responsabilidade de manter uma chama acesa que é, acima de tudo, comunitária.


Durante uma visita à agremiação carnavalesca Bole-Bole, a voluntária Lucília, mais conhecida como Lulu,  atua há mais de três anos no processo de produção da escola e relata os desafios enfrentados ao longo da preparação. “A gente se prepara esperando muita ajuda, é difícil. Temos que correr atrás, fazer uma festa aqui, uma rifa ali, e assim a gente vai seguindo”, conta. O presidente de honra da escola, Herivelto Martins, o  “Vetinho” também confirma essa dificuldade: “É uma atividade cara. Apesar de a gente fazer reciclagem e tentar baratear, mesmo assim é uma atividade cara”, afirma.


Presidente, voluntários e musicistas no barracão da Escola de Samba Bole-Bole (Reprodução: Hugo Silva)
Presidente, voluntários e musicistas no barracão da Escola de Samba Bole-Bole (Reprodução: Hugo Silva)

Carnaval como transformação social


Mais do que uma festa, o Carnaval é um ato político e de resistência. Uma ação que gera empregos, fomenta a economia local e, sobretudo, transforma vidas. Vetinho comenta como a relação entre a escola e a comunidade pode mudar destinos. “Em uma conversa com a minha esposa, uma secretária comentou que o Bole-Bole salvou a vida do filho dela. Ele andava meio perdido, mexendo com coisa errada, mas entrou para a bateria da escola e tudo mudou. Hoje é outro garoto”.


Os trabalhos desenvolvidos nos barracões exigem técnica, experiência e extrema cautela. Cada peça produzida ultrapassa a dimensão material: carrega identidade, memória coletiva e dá vida aos enredos que serão apresentados na avenida. No entanto, mesmo com dedicação e paixão, a falta de apoio governamental compromete as condições de trabalho. A ausência de espaços adequados dificulta os ensaios e prejudica a conservação de fantasias e alegorias. Jamil Mouzinho destaca a relevância de melhores condições para os artesãos da Quem São Eles: “nós precisamos do apoio do poder público, no sentido de poder estar nos oferecendo espaços onde essas pessoas possam trabalhar de forma mais digna, digamos de forma mais tranquila, até para que executem seu trabalho da melhor maneira possível, com excelência”.


Essa realidade não é recente. Estudos sobre o Carnaval paraense apontam que, após a chamada “idade de ouro” da década de 1980, as escolas passaram a enfrentar um cenário de crescente invisibilidade e desvalorização. Conforme analisado por Carmem Izabel Rodrigues e Claudia Suely dos Anjos Palheta, no artigo “Escolas de samba de Belém: do princípio ao meio, entre os fatores que explicam o enfraquecimento do carnaval local estão o desinteresse atual dos poderes públicos — antes demonstrado por meio de visitas oficiais aos barracões e apoio institucional — e a falta de condições mínimas para a manutenção das atividades das agremiações. A infraestrutura para as escolas de samba em Belém do Pará é marcada por precariedade crônica, com ausência de barracões públicos adequados e falta de espaços permanentes e estruturados para a produção de fantasias e carros alegóricos. Essa situação obriga muitas agremiações a improvisar ou utilizar locais alugados, dificultando a confecção de materiais de grande porte e impactando diretamente a qualidade e a continuidade do trabalho cultural desenvolvido pelas escolas.



Escola de Samba Quem São Eles (Reprodução: Instagram)
Escola de Samba Quem São Eles (Reprodução: Instagram)


Para além das dificuldades, as escolas de samba carregam uma cultura colaborativa e um entusiasmo de quem as representa. Ao pisar na avenida, o coração acelera, surgem lembranças de cada esforço, cada suor derramado e a felicidade em saber que tudo valeu a pena, toma conta, o sentimento em querer compartilhar seus enredos e dar o seu melhor pela sua comunidade preenche suas veias. Em uma conversa com Wállery Risuenho, rainha de bateria da Associação Carnavalesca da Unidos da Baixada de Icoaraci e que também estreia em 2026 como passista da Escola de Samba Quem São Eles, compartilha  o sentimento ao pisar no chão da avenida: “normalmente a gente começa já desde agosto em todas essas preparações. Então assim, a gente já vai preparado, mas quando a gente chega lá e escuta aquela buzina, gente… o nosso coração acelera de uma forma que eu não sei nem explicar pra vocês”. Essa sensação de conquista, transborda o peito e enche de alegria, não só as pessoas que participam do desfile na produção, mas também as que desfilam. 


A época do Carnaval não é apenas mais um evento comemorativo,  mas sim um período em que escolas de samba contam seus enredos através de carros alegóricos, por quem está na avenida e, principalmente, por quem torna possível a apresentação por meio de suas produções, suor e esforço, por aqueles que trabalham nos barracões. Independente da falta de apoio governamental, conforto ou materiais apropriados, eles se doam e transformam todo o enredo que estava apenas gravado na lembrança, em roupa, decoração e enfeite em arte.

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