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A fé que mobiliza a arquibancada

limiaresrevista
6 de mar.
5 min de leitura

No Pará, demonstrações de fé caminham lado a lado com o esporte



Por: Luc chermont, Nikolas Portilho, Júlia Meiguins e Richard Trindade



“A minha relação com o clube, eu digo sempre que é um mistério porque sinceramente não sei quando começou, sei que sempre torci por ele, eu diria que pro bom torcedor sempre é um mistério saber quando tudo começa”

discorre o Padre Carlos Sousa, sacerdote e torcedor de declarado do Paysandu. Essa e outras tantas histórias mostram que o Brasil se tornou o “país do futebol”, e isso não foi por acaso: 5 taças da Copa do Mundo, jogadores lendários e uma paixão popular que ultrapassa questões de gênero, raça e classe. Além do futebol, o Brasil tem outra expressão muito forte por parte da população, a religiosidade, essa fé se expressa de diversas formas no cotidiano das pessoas, com o esporte sendo uma delas , com a convivência dessas duas vertentes o limiar entre fé e esporte se fez cada vez mais tênue.


Desde a conquista do título da Copa do Mundo de 1958, nosso primeiro título, o futebol brasileiro mostra que veio pra ficar, pois a vitória despertou o orgulho dos brasileiros pelo esporte, e até os dias de hoje, nada une tanto a nossa nação quanto a ufania e o prazer de ver o Brasil conquistando espaços de sucesso ao redor do mundo. Com isso, o futebol se tornou um fenômeno esportivo e cultural no país, com torcedores que usam o brasão de um time como símbolo de sua identidade, e ajudou na formação de laços afetivos entre as pessoas que se conectam com o esporte de alguma forma. O Pará não fica de fora dessa relação. A pesquisadora sobre futebol Milene Sousa, de 35 anos, justifica um pouco do amor paraense por futebol: “O paraense leva tão a sério porque isso é questão de rivalidade e muita questão de sentimento mesmo, de ligação. Acredito que é muita questão de origem familiar.”


A rivalidade entre Remo x Paysandu no Pará existe há mais de um século e é estimulada por uma disputa pela supremacia do futebol paraense. Com essa sede por sucesso, a vitória é manifestada de diversas formas, e a manifestação religiosa é uma das mais evidentes no Pará. Diversos torcedores e jogadores se conectam com símbolos religiosos, em templos e na conexão espiritual para tentar se aproximar da vitória esportiva, e no Pará, com uma população majoritariamente cristã,segundo o último censo do IBGE , o Círio de Nazaré possui um papel fundamental nessa conexão entre religião e esporte. O estado é palco de promessas, de orações, e de tudo aquilo que representa a religiosidade, e o sucesso de um time de futebol está presente em muitas dessas demonstrações de fé, como aconteceu em 2025, no acesso do clube do Remo à série A do futebol brasileiro. 


A devoção por Nossa Senhora de Nazaré ocupa uma posição central na cultura paraense. Essa ligação com o sagrado se estende a promessas feitas por paraenses torcedores de diferentes times, seja em busca de vitórias em partidas ou acessos a divisões superiores. João Carlisson, torcedor do Paysandu de 21 anos, compartilha: "A que mais significou para mim foi a de 2023. O Paysandu já vinha de uma sequência de ‘bates na trave’ no campeonato brasileiro da série C [...] e em 2023, eu estava em todos os jogos. No início do campeonato, eu fiz uma promessa de que se o Paysandu subisse pra série B eu iria da Marambaia, que é da onde eu moro, até a Basílica [de Nossa Senhora de Nazaré] caminhando. Quando o Paysandu subiu, eu cumpri essa promessa depois do jogo”.


Cerimônia no gramado do estádio da curuzú (Reprodução: Matheus Vieira)
Cerimônia no gramado do estádio da curuzú (Reprodução: Matheus Vieira)

A longa espera


Domingo, 23 de novembro de 2025. Nas arquibancadas do estádio do Mangueirão, para onde você olhasse, veria uma multidão de camisas azuis. Pessoas segurando seus terços ou com as mãos unidas em uma prece silenciosa, sussurrando promessas e fechando os olhos a cada bola que passa perto demais da rede do time do leão azul. Remo e Goiás em um jogo decisivo, aquele que poderia garantir a volta do azulino à série A. A caminhada até o final do campeonato foi longa, todas as derrotas, empates e vitórias trouxeram o time até ali. E dessa forma, aos 34 minutos do segundo tempo, Pedro Rocha fez o cruzamento que João Pedro concluiu de cabeça, selando o resultado em 3 a 1 e garantindo a vitória para o Clube do Remo.


O apito final soou, um apito sinalizando o fim da corrida e a conquista da vitória, dessas que fazem o povo olhar para o céu antes de olhar o placar, para que tivessem certeza de que não estavam sonhando. O Clube do Remo estava de volta à Série A após 31 anos e o feito parecia mais uma resposta divina do que um simples placar matemático, era uma resposta às orações, às promessas e à persistência de quem nunca deixou de acreditar, mesmo quando a lógica mandava desistir. A comoção tomou conta da cidade depois da grande notícia. Seja em choro, grito ou silêncio, todas as respostas eram válidas à euforia coletiva que tomava conta da torcida.



Entre o sagrado e o imprevisível do futebol


jogo do acesso - Remo e Goiás ( Foto: Luan Ferreira)
jogo do acesso - Remo e Goiás ( Foto: Luan Ferreira)

Para muitos azulinos, no entanto, abandonar o clube nunca foi uma opção. Na alegria ou na tristeza, o importante era permanecer firme e o que prevalecia era a fé de que tudo daria certo. Com otimismo, os ventos da maré pareciam sempre impulsioná-los para a frente, mesmo com as adversidades, mas isso não os impediu de continuar crendo, porque para o torcedor, o futebol nunca é só bola em campo. Sempre há algo além, que mobiliza o time quando o físico se esgota. Algo que mora entre o grito da arquibancada e o silêncio tenso antes do apito final. Algo que se chama fé.


 E, em algumas ocasiões, tão crucial quanto o esforço físico é ter fé, crer que tudo é viável ou que existe uma força superior te motivando a não desistir. No Pará, essa forma de fé está interligada a diversos aspectos da vida dos habitantes e uma das mais significativas é o esporte.


Durante a jornada em busca do acesso pelo Clube do Remo, isso não foi diferente. Muitos

torcedores se dedicaram a fazer suas preces e promessas à Nossa Senhora de Nazaré, que também esteve presente – em forma física, com imagens e terços – em diversas partidas do clube, e na festividade do Círio de Nazaré, onde era comum ver torcedores com suas camisas azul marinho nas ruas, rogando à santa que estendesse suas mãos e ajudasse nessa difícil trajetória. Renan Reis, de 26 anos, é fiel torcedor do azulino há vários anos e diz: “Essa conexão da Nossa Senhora de Nazaré e o Clube do Remo, ou qualquer outro daqui do estado, ela sempre foi muito forte. Isso já vem de décadas e sempre que chega próximo do Círio, ela fica cada vez mais forte”.



As promessas e homenagens transcendem o período do Círio, e invadem o campo, como ocorreu logo após o término da partida que garantiu o acesso, quando torcedores invadiram o campo e espalharam sobre a grama um enorme mosaico de Nossa Senhora de Nazaré. “Quando chegou próximo do Círio, os jogadores passaram a entrar com as imagens da santa em campo. E na última rodada, teve um mosaico com a Nossa Senhora de Nazaré, e foi ela quem abençoou o time a conseguir esse acesso heróico na última rodada”, comenta Renan Reis.


A linguagem do futebol deixa de ser apenas esportiva, mas passa a ser espiritual também. A arquibancada vira templo improvisado, a televisão se transforma em um altar e cada jogo decisivo carrega o peso de um rito. O torcedor aprende cedo que a vitória nem sempre vem no tempo dos homens. Às vezes, é preciso esperar. Sofrer. Confiar. E a fé entra como linguagem comum, ponte entre o campo e a arquibancada, entre o humano e o inexplicável. Não garante gols — nunca garantiu —, mas sustenta o coração quando o jogo aperta.



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