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39 anos de boi, de tambor e de uma resistência que transforma Belém a cada ano

limiaresrevista
5 de jul.
7 min de leitura

Da Praça da República ao Ver-o-Peso: como o Arraial do Pavulagem sobrevive há quatro décadas entre edital, música e saudade


Por: Elis Caldas



O Arraial do Pavulagem é um dos maiores movimentos de valorização da cultura popular da Amazônia. Oficializado em 1987, em Belém, o grupo nasceu com o objetivo de fortalecer manifestações tradicionais da cultura paraense, como o boi-bumbá, os cordões de pássaros, as quadrilhas e outras expressões populares.

O símbolo mais conhecido do movimento é o boi Pavulagem, que se tornou um ícone cultural de Belém. Todos os anos, milhares de pessoas participam dos tradicionais cortejos juninos pelas ruas da cidade, acompanhando músicas, danças e manifestações folclóricas. Ao longo das décadas, o Arraial do Pavulagem transformou-se em uma referência nacional de preservação da cultura amazônica, promovendo educação cultural, formação artística e o fortalecimento da identidade paraense. 

Mais do que um cortejo de rua, o Pavulagem é um processo vivo de resistência, inclusão social e afeto coletivo. O som das maracas, as batidas ritmadas dos tambores e o colorido vibrante dos chapéus de fitas transformam a capital paraense em um verdadeiro palco de ancestralidade e festa — um movimento que nasceu despretensiosamente nessas mesmas ruas.


Da tala ao asfalto: uma trajetória de resistência


A história do Pavulagem começa com um boizinho de tala e o desejo de três mentes — as de Ronaldo Silva, Júnior Soares e Rui Baldez — em manter uma tradição viva. Em uma época em que a própria população local preteria as manifestações nortistas em favor de referências externas, esses artistas decidiram fincar os pés na ancestralidade regional. Iniciado em 1987, há 39 anos o Arrastão consolida-se como uma expressão de amor e fé da cultura paraense, promovendo diversidade e transmissão dos conhecimentos tradicionais.


Atualmente, o Instituto Arraial do Pavulagem gerencia quatro grandes momentos culturais que abraçam o calendário paraense:

“Cordão do Galo”, realizado no arquipélago do Marajó; “Arrastão do Pavulagem”, o tradicional e grandioso cortejo junino que toma as ruas de Belém; “Arrastão do Círio”, a homenagem cultural que integra as festividades da maior manifestação religiosa do estado no segundo domingo de Outubro e o “Cordão do Peixe-Boi”, cortejo lúdico que abre o calendário em janeiro, unindo a celebração popular à conscientização ambiental.

Apesar da magnitude que o evento alcançou, os desafios estruturais são diários. Sem uma sede própria, operando historicamente em um espaço cedido pelo “Point do Açaí”, o Pavulagem sobrevive graças a apoios pontuais, leis de incentivo e, acima de tudo, à dedicação incansável de seus brincantes.


Eduardo Cunha no Batalhão da Estrela. Foto: Arruda
Eduardo Cunha no Batalhão da Estrela. Foto: Arruda

"Tem gente que pensa que o Arrastão, o Arraial do Pavulagem ganha milhões, mas, tipo, tem eventos que chamam a gente, mal dá para pagar os músicos que vão com a gente, um ônibus e é isso. Às vezes a gente nem fica com o dinheiro (...). Isso daí é uma cultura do Brasil, né? Valorizar muito o que é de fora e não valorizar o que é daqui. Então, eu vejo como reflexo do próprio pensamento cultural ao longo do tempo", discorre Eduardo Cunha, brincante e participante assíduo do Arrastão. Seu relato evidencia que o subfinanciamento crônico faz com que o Pavulagem opere de maneira sazonal, sem conseguir manter as portas do Instituto abertas de forma contínua durante todo o ano, resistindo graças ao amor inabalável de seus brincantes e com parcerias, que juntos ajudam a manter essa cultura do arrastão viva.



Muito além do cortejo: as vivências que fazem o Pavulagem


Para quem acompanha a "pipoca" (o público geral) em meio à multidão, pode parecer que o arrastão é um evento puramente espontâneo. No entanto, por trás da beleza plástica que se vê no asfalto, existe um processo formativo muito mais complexo do que se imagina.  As oficinas são a parte formativa do Pavulagem. Elas acontecem antes e durante o mês de junho e servem para ensinar, manter e espalhar a cultura do boi e do arrastão, em vez de só apresentar o espetáculo pronto.


"O Ronaldo Silva nem gosta que chamemos de 'oficinas', e hoje eu concordo com ele: são vivências. É um período formativo onde compreendemos nosso corpo como dançante e interagimos com pensamentos diferentes", relata o brincante do Instituto, Eduardo Cunha.

Essa distinção conceitual muda completamente a dinâmica do aprendizado. Não se trata apenas de transferir uma técnica musical ou um passo de dança de forma mecânica; trata-se de um período de imersão identitária. Nessas vivências, os participantes são provocados a entender o próprio corpo não como um mero reprodutor de movimentos, mas como um território de expressão: o "corpo dançante e bailante", expressão comum para quem participa. As vivências funcionam como um laboratório social, um espaço onde individualidades de realidades, idades e pensamentos completamente diferentes são desafiadas a interagir, dialogar e construir algo coletivo.

Toda essa preparação se reflete na estrutura milimetricamente organizada do cortejo, que evoluiu e se transformou ao longo das décadas para dar vazão à riqueza da cultura amazônica em seus segmentos:  


A percussão: a base rítmica de tudo, que dita o passo do boi com marabaixo, onça, caixas de boi, maracas, que remetem diretamente ao ritmo do carimbó, além das matracas, que trazem a forte influência da tradição dos bois do Maranhão.

A dança: este segmento carrega uma das modificações históricas mais curiosas do Pavulagem. No início, a dança surgiu com uma função utilitária e de proteção: um grupo de pessoas se organizava ao redor dos músicos para isolá-los e abrir caminho na multidão, com passos mais marcados, pesados e viscerais, típicos de uma dança de rua defensiva. Com o tempo, a ala mudou de posição, migrou para a frente da percussão e ganhou contornos artísticos. Hoje, os passos são mais elaborados e coreografados.

Os pernaltas: artistas em pernas de pau que trazem a ludicidade e a verticalidade visual ao cortejo

Os bailantes e a acessibilidade: novas alas e canções, como as do projeto “Bandeira de Guarnição” (influenciada pelas raízes bragantinas do cofundador Júnior Soares e a tradição dos esmoladores de São Benedito), dividem espaço com alas totalmente dedicadas a cadeirantes e pessoas com deficiência, garantindo que a cultura seja, de fato, para todos.


O sentimento de pertencimento: "Saber que se está vivo"


"O Arraial representa a identidade, sabe? A identidade cultural é forte. Então, a história, que é contada, porque não é só um grupo de pessoas que sai tocando até em tal lugar. É tudo uma história envolvida, então tudo o que tá acontecendo ali, ele tem um significado”, comenta Renato Moraes, brincante que toca Marabaixo.


A verdadeira força do Arraial do Pavulagem não se mede em cifras ou patrocínios, mas na saúde social, psicológica e emocional de quem veste a camisa e cruza o asfalto. Longe de ser apenas um esforço físico ou uma apresentação cênica, participar do arrastão é um ato de catarse coletiva e um reencontro com a própria identidade. Para os brincantes, o Pavulagem atua como um espaço terapêutico e uma rede de apoio que transforma vidas através do afeto e da convivência intergeracional.


O grupo da dança ilustra perfeitamente essa transformação: se no início da história do cortejo a ala era composta majoritariamente por jovens, hoje ela acolhe uma expressiva quantidade de pessoas idosas. Essa mudança de perfil estabelece uma rica troca de experiências, onde o Pavulagem passa a funcionar como um poderoso estímulo fisiológico e mental, combatendo o isolamento social e ressignificando o envelhecimento na Amazônia. Nos ensaios e vivências, criam-se laços de amizade profunda que preenchem vazios emocionais.


Stephan como Pernalta. Foto: Arquivo pessoal
Stephan como Pernalta. Foto: Arquivo pessoal

A jornada de preparação — muitas vezes conciliada com rotinas exaustivas — exige abdicação e esforço. Stephan Sampaio vive esses momentos como pernalta:

"É uma experiência, pra mim, assim, quando você vai pros ensaios todo dia, quando você vai pras oficinas e depois tem ensaios todo dia, que são todos os dias pela noite, né? Então, normalmente, você sai das escolas, você sai da faculdade, você sai do trabalho, e aí você vai pra lá treinar"



Mas o esforço encontra sua recompensa no momento em que o cortejo atinge o seu ápice, como afirma Eduardo Cunha:

"Nos ensaios a gente vai, faz amizade, socializa, mas eu acho que é muito, muito emocionante fazer parte. A gente até comenta assim: 'Égua, todo mundo vai para ver o boi”, A gente sabe que é um boizinho, um boizinho de pano, que tem uma pessoa por debaixo, e a gente fica muito emocionado. (...) Então, eu digo assim, é um momento da gente perceber que a gente está vivo, que a gente faz parte de alguma coisa, meio que a gente está contribuindo com alguma coisa. Tipo, a gente faz parte, ah, eu faço parte para contribuir com a cultura popular, manter vivo um legado que se criou..."


Boi azul do Pavulagem. Foto: Elis Caldas
Boi azul do Pavulagem. Foto: Elis Caldas

Essa sensação de "perceber que se está vivo" deságua em uma emoção incontrolável quando o cortejo chega às escadarias do icônico Teatro da Paz. É ali, sob a sonoridade potente das barricas e maracas, que a exaustão física se transforma em choro de alívio e orgulho. O choro, que se repete ano após ano entre os brincantes no primeiro e no último cortejo da temporada, é o reflexo de quem compreende que sua existência individual se fundiu a uma causa coletiva.


Participar do Pavulagem deixa de ser um passatempo dominical e passa a ser a validação de um propósito. É a certeza de que, graças à entrega de cada brincante, um legado histórico iniciado décadas atrás por Ronaldo Silva, Júnior Soares e Rui Baldez permanece inabalável, pronto para ser transmitido como herança cultural para as futuras gerações.


"Ah, o batalhão é o meu refúgio, sabe? Eu costumo dizer que é o meu refúgio. É onde eu consigo expressar, tocando. Eu amo tocar. É desde sempre, seja em escola de samba, boi-bumbá, Pavulagem, eu amo tocar. Então eu uso o Pavulagem para esquecer os problemas, para renovar a minha energia. É a cada toada que toca, a cada música que toca, eu tento transbordar o máximo possível para ver pessoas felizes, trocando aquela energia positiva, aquela energia forte de alegria.”  relata Moraes.


Renato Moraes, tocador de marabaixo. Foto: Arquivo pessoal
Renato Moraes, tocador de marabaixo. Foto: Arquivo pessoal

Mais do que um espetáculo para ser assistido das calçadas, o Arraial do Pavulagem é um chamado para a participação ativa e para a preservação de quem somos. Quem vive o arrastão por dentro carrega o desejo genuíno de que essa engrenagem de afeto nunca pare de girar. É o anseio profundo de transmitir aos filhos e netos a mesma paixão que hoje faz a cidade pulsar, garantindo que a identidade amazônida continue firme em suas raízes. Para quem olha de fora e deseja compreender a verdadeira alma de Belém, o recado de quem dedica a vida ao cortejo é simples, direto e acolhedor:


"Eu me sinto muito feliz em participar disso (...) Eu quero que meus filhos, futuramente, participem disso, do que eu, tipo, faço parte hoje. Perfeito. E eu recomendo todo mundo a fazer parte também."


O Pavulagem encerra cada ciclo junino deixando um rastro de esperança e pertencimento no asfalto. Ele permanece como a prova viva de que, enquanto houver uma maraca tocando, um chapéu de fita colorindo o vento e a força dos brincantes unindo gerações, a cultura popular do Norte não será apenas lembrada — ela continuará soberana, pulsante e imortal.


Batalhão da Estrela. Foto: Elis Caldas
Batalhão da Estrela. Foto: Elis Caldas



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