O Pará que pulsa fora do mapa: a distância e a desigualdade que desafiam o pertencimento do povo
Ser paraense é estar no limiar de viver em um território vasto, mas que exclui grande parte de seus habitantes e limita o acesso a direitos básicos
Por: Edinei Campos, Henrique Marcon, Larissa Costa e Manuelly Silva
"Todos conhece a nossa história mais ninguém se importa porque são todos egoístas e nós não temos condições de comprar […] a prefeitura tem tudo mas não ajuda porque não se importa com o ser humano"

Esta é a fala de indignação de Ester Veras, 74 anos, que mora a sete quilômetros de Cachoeira do Piriá, município localizado no Nordeste do Pará, a cerca de 260 km de Belém. A moradora relata a dura vivência de morar tão distante da capital paraense e os problemas causados pela logística do lugar onde vive.
Dona Ester, que mora há 49 anos no local, viveu até 2022 sem energia elétrica e, até hoje, sofre com os constantes alagamentos durante o inverno amazônico e com a ausência de um aterro sanitário.
Essa realidade não é exclusiva desse município, mas sim o reflexo de um padrão de abandono que se repete em diferentes regiões do Pará. O estado, com mais de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, é marcado por profundas desigualdades no acesso a direitos básicos. O emblema simbólico de estado com dimensões continentais mascara a experiência cotidiana de quem vive longe dos centros urbanos, onde serviços públicos de cidadania e assistência social se concentram.
Nessas áreas, a dificuldade de acesso à saúde, à educação e à infraestrutura mínimas transforma a distância em um obstáculo permanente ao exercício da cidadania. Mais do que um problema geográfico, trata-se de uma exclusão política e administrativa, na qual comunidades inteiras permanecem à margem das decisões e das políticas públicas, vivendo uma condição de invisibilidade que configura, de forma desigual, o que significa ser paraense.
O território onde o olhar do Estado não alcança
No último Índice de Progresso Social (IPS Brasil 2025), essa desigualdade estrutural aparece de forma concreta. O Pará reúne sete municípios entre os piores do país em qualidade de vida, considerando indicadores como necessidades básicas, educação, saúde, acesso à informação e oportunidades. O município de Jacareacanga, que detém o pior índice do estado e ocupa a segunda pior posição no ranking nacional, está localizado a cerca de 1.700 km de Belém e registra uma diferença superior a 16 pontos em relação aos municípios da Região Metropolitana da capital. Os dados do IPS reforçam que a distância, no Pará, não se limita ao território. Ela é produzida pela forma desigual como o Estado organiza a urbanização, a infraestrutura, a oferta de serviços públicos e as oportunidades econômicas.
Regiões com maior concentração urbana, como Belém, apresentam índices mais elevados, enquanto áreas mais afastadas, como Jacareacanga e Cachoeira do Piriá, acumulam os piores indicadores. Para o professor e especialista em economia e planejamento regional, Eduardo Costa, esse descompasso torna a localização geográfica um fator decisivo para o acesso a direitos, aprofundando desigualdades e configurando, de maneira distinta, as condições de vida de quem habita os centros urbanos e de quem permanece nos extremos do mapa:
"A distância física, ela acaba funcionando como um mecanismo de exclusão socioespacial. Porque ela gera aquilo que a gente pode chamar de desvantagens cumulativas. Então, quem está mais isolado tende a ter mais dificuldade para acessar serviços, e isso impacta, por exemplo, dimensões como nível de escolaridade, renda, saúde, oportunidade, qualidade de vida e até mesmo expectativa de futuro. O isolamento geográfico, combinado, portanto, com a baixa capilaridade do Estado no território, acaba se convertendo, sim, em uma situação de invisibilidade política”
Ainda de acordo com Eduardo, essa condição de invisibilidade estabelece uma hierarquia no acesso aos direitos básicos. Para o especialista, essas conexões entre comunidades e serviços públicos definem o padrão real da cidadania. Isso porque a distância deixa de ser meramente um dado físico para se tornar um filtro de acesso e separando quem se beneficia do Estado e quem acaba vivendo uma cidadania limitada.
Além da distância, os meios de transporte e as condições hidrológicas e meteorológicas impõem uma realidade que acaba se convertendo em uma situação de invisibilidade política, segundo Eduardo. “A política pública funciona por priorização. O território ou aquela comunidade que não aparece, que não tem voz ou que não se faz presente continuamente no debate da agenda pública, ela necessariamente acaba se tornando invisível e, com isso, recebe a menor presença do Estado, tem menos atenção, menor volume de investimento, menor continuidade ou até mesmo descontinuidade de ações”, explica.
A luta por direitos e a ausência do Estado
Localizado a cerca de 120 km da capital Belém, o Acará é um exemplo de município cujo cotidiano é ditado pelos rios amazônicos. Se por um lado as águas organizam os deslocamentos e a vida social, por outro, tornam-se um obstáculo para quem habita as margens opostas. Emina Maria, moradora de Santa Maria, no Baixo Acará, conta que já deixou de acessar serviços essenciais devido à grande distância que teria que percorrer para acessá-los. Para ela, o Estado é ausente nas localidades mais distantes dos centros urbanos, principalmente no que diz respeito à saúde e educação, o que interfere na busca de oportunidades.
“Da cidade do Acará para a nossa comunidade, fica mais ou menos de três a quatro horas de distância. O preço também, o valor da passagem para chegar lá é muito grande, é muito alto, 50, 60 reais para ir e para voltar. A dificuldade é a distância. E não tem algo que a gente possa dizer, ah, foi o governo que trouxe, né? A gente não tem. Na nossa comunidade lá não tem um agente de saúde, e tem muita criança, muito idoso que precisa. Não tem um transporte escolar que é para levar as crianças para a escola. Aqui a gente tem uma escola de ensino fundamental até o quinto ano, mas as crianças têm que andar até uma hora de tempo para chegar na escola”, relata.

Segundo o especialista em Educação e Problemas Regionais, Alberto Damasceno, a desigualdade no acesso a direitos, especialmente a educação, não deve tratar a distância apenas como obstáculo técnico, pois tende a reforçar soluções padronizadas que não refletem a realidade do local. Para o especialista, “compreender a distância como um desafio socioespacial implica reconhecer que políticas relacionadas a transporte, calendário escolar [...] e uso de tecnologias precisam dialogar com os tempos dos rios, do trabalho comunitário e das culturas locais. Assim, mais do que “encurtar” distâncias, o desafio é construir políticas públicas que respeitem os territórios e promovam equidade, valorizando a diversidade amazônica.”
Essa mesma ausência do governo do Pará atravessa o relato de Dona Ester Veras. Morando a cerca de 1.200 metros de uma rodovia, com acesso limitado a energia e enfrentando alagamentos constantes, ela descreve sua sobrevivência sem apoio do poder público e como se apoia através de sua fé: “Aqui estamos vivendo dia após dia, ano após anos esperando Jesus voltar […] porque esse não falha”. A falta do Estado é sentida na história da família, que precisou se dispersar para outras regiões em busca de melhorias e oportunidades que não chegaram onde ela vive com o marido.
Assim, é preciso entender que para além da geografia, essas desigualdades revelam uma gestão governamental excludente e um modelo de desenvolvimento injusto. Nesse sentido, para reduzir esses desafios, é necessário um novo modelo de política pública que adapte o território, transformando o obstáculo em oportunidades. No Pará, ser cidadão é, mais que tudo, lutar pelo direito a ter direitos e existir na imensidão territorial. Assim como também é exigir, segundo Alberto, que as políticas públicas sejam “policêntricas, flexíveis, tecnologicamente assistidas, profundamente contextualizada e radicalmente democráticas, e cujo objetivo final não deve ser apenas levar educação "aos confins", mas reconhecer que neles existem saberes e modos de vida com os quais a educação formal deve dialogar, valorizar e integrar.”
Redesenhando os limites e a luta pela democratização
O acesso aos direitos básicos como energia elétrica e saúde reforça a luta das pessoas afetadas pelo descaso institucional. A trajetória de Dona Ester para iluminar a casa e o esforço de Emina para romper o isolamento mostram que, para quem vive em municípios afastados da capital, a cidadania não é um direito entregue, mas sim uma conquista moldada pela insistência. A esperança delas não é uma espera passiva, mas a coragem de quem segue documentando a própria existência e exigindo o seu lugar no mapa.

Essas trajetórias, embora singulares em suas dores, dão rosto e voz a milhares de outros paraenses que habitam as “margens” dos mapas oficiais. A luta de Emina e o isolamento de Ester não são casos isolados, mas o retrato de um território em que a cidadania é fragmentada pela geografia e pela omissão. Em cada ramal de terra batida ou em cada margem de rio onde o serviço público não desembarca, existem outros cidadãos que diariamente precisam se reinventar e buscar soluções para o que deveria ser garantido por lei. Para esses paraenses, o pertencimento ao Estado é testado a cada inverno que isola a estrada e a cada emergência que não encontra um posto de saúde aberto.
Portanto, falar sobre essas pessoas é falar sobre uma resistência coletiva que redefine o que significa viver no Pará. Questionada sobre o que diria a quem toma as decisões, Emina responde: “ Acho que olhar no final da fila, para ver as pequenas cidades. Também tem pessoas, têm jovens, crianças e adolescentes, idoso que precisam muito.” É reconhecer que a imensidão territorial não deve ser usada como justificativa para o esquecimento, mas como um chamado para as políticas que alcancem quem está na “ponta” desse sistema. Essa luta por direitos básicos mostra que o isolamento não apaga a condição de cidadão, mas a torna um ato de resistência. Elas provam que a identidade paraense é forjada nessa capacidade de não se deixar apagar pela distância, exigindo que o Estado aprenda a enxergar além das luzes da capital.


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