Da periferia às universidades: a resistência da juventude paraense nos cursinhos populares
Atualizado: 6 de mar.
Cursinhos populares se tornam espaços de resistência para jovens, de Belém e das ilhas, que enfrentam desigualdades históricas e buscam alternativas de acesso ao ensino superior público
Por Bianca Campos, Diego Andrade e Rayane Pizon
“Alô papai! Alô mamãe!’ Põe a vitrola pra tocar! Podem soltar foguetes que eu passei no vestibular.” Entre os meses de janeiro e fevereiro, é tradição escutar o trecho da Marcha do Vestibular do Pinduca pelas ruas chuvosas e nubladas da capital paraense. Com o listão dos aprovados no Exame Nacional Do Ensino Médio (ENEM) sendo anunciados na rádio em volume máximo, e os rojões dos fogos de artifício estourando pelos bairros, os gritos histéricos de felicidade e sabe-se que aquele jovem da casa ao lado passou no vestibular. A cidade entra em festa, os churrascos atravessam a noite, os calouros estão cobertos de ovo e trigo com a cabeça raspada, segurando a tão almejada aprovação nas mãos e a periferia se ilumina com as lágrimas daqueles que, mesmo com tantos obstáculos, conseguiram chegar na porta de entrada de um sonho que parecia impossível.

Calouros vindos de comunidades marginalizadas encontram em cursos preparatórios, uma oportunidade para se preparar e conquistar um espaço na universidade. Foi o que aconteceu com a estudante de cursinho popular Luanne Silva, aprovada em Desenvolvimento Rural na UFPA, em 2021. “Eu lembro que em 2020 eu fiz de novo o Enem, e foi onde eu consegui passar. E assim, eu já estava muito desacreditada que eu pudesse conseguir entrar na universidade", afirma ela.

Moradora da ilha Furo do Maracujá, localizada próxima de Belém, ela concluiu o ensino médio em 2014 e tentou o Enem por vários anos sem sucesso. “Então, para a minha família, eu sendo a primeira da minha família a passar no vestibular (…) eu tenho muito orgulho e que eles também têm. Meu pai sempre falava, meu pai já faleceu, né? Ele faleceu há dois anos. Então, ele falava assim que ele tinha muito orgulho de mim, porque eu consegui entrar na universidade, apesar de todos os desafios, eu consegui não desistir do que eu queria.”
A estudante conta que conseguiu ingressar na universidade pública graças ao cursinho popular Emancipa da UFPA. “E a gente não tinha muitas condições, mesmo financeiras, porque eu tinha, eu e mais dois irmãos. E eu tive o meu filho também, né? Então, assim, era bem difícil de conseguir pagar(…) E eu falo que o Emancipa, ele foi fundamental, até pra eu entrar na universidade, pra me preparar pra entrar na universidade.” A maternidade precoce e o acesso precário à internet também impactaram diretamente sua trajetória. Foi apenas ao ingressar em um cursinho popular que Luanne passou a compreender o funcionamento do sistema de ingresso no ensino superior e a ter acesso a uma formação que ia além do conteúdo cobrado na prova do Enem, contribuindo na sua constituição enquanto indivíduo.
Cursinho popular e a resistência da periferia
No Brasil, de acordo com o Plano Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizado em 2024 pelo IBGE, cerca de 72,6% das pessoas que frequentavam o ensino superior eram de escolas públicas, entretanto apenas 39,5% dos concluintes do ensino médio em escola pública ingressam diretamente na universidade. E esses dados pioram quando se considera as desigualdades sociais. Somente 17% dos jovens pretos são ingressantes diretos e 16% dos concluintes das escolas rurais adentram no ensino superior. Os indivíduos mais marginalizados, principalmente estudantes do ensino público, não têm condições financeiras de pagar uma preparação para o vestibular e muitas vezes não têm tempo para se preparar adequadamente, estudando em sua maioria em escolas que não oferecem o mínimo de infraestrutura.
Nesse cenário, os cursinhos populares surgem como uma das principais pontes entre a juventude periférica e o ensino superior. Gratuitos e organizados por movimentos sociais, estudantes universitários e educadores voluntários, esses espaços não apenas preparam para o Enem, mas também orientam sobre inscrições, políticas de acesso, escolha de cursos e direitos estudantis, informações que ainda não chegam de forma igualitária a todos. “ O nosso trabalho ali é de colocar esses alunos para pensar na realidade deles. De colocar, de estar no nosso projeto, inclusive de tapar essas lacunas, esses buracos que foram deixados pelo sistema público educacional.”, relata a diretora geral do cursinho popular Alternativo da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Tiffany Pombo.
Segundo Tiffany, cursinhos populares como o Alternativo e o Emancipa atuam como uma resistência educacional para os mais pobres e vulneráveis, pois reconhecem a realidade e as dificuldades vivenciadas por seus alunos, e possuem polos que funcionam dentro de universidades públicas, o que já proporciona aos jovens a oportunidade de vivenciar o ambiente acadêmico antes mesmo do ingresso formal.“ A gente chegou a atender gente de Marituba, de Santa Isabel. Então as pessoas vinham de muito longe para chegar ali, e era uma única oportunidade [...] de fazer cursinho que eles tinham. Enquanto tinham pessoas que faziam cursinho pago caríssimo, com aqueles cadernos, aqueles livros gigantescos, de mil páginas, e com todo o tempo livre… Muitos têm que trabalhar também, a gente tem alunos ali que estudam também no sábado, nas escolas deles e saem das escolas no sábado de manhã e vão pro cursinho no sábado à tarde. Então é uma rotina muito difícil.” relata a diretora.

Mais que uma aprovação: educação que transforma territórios
O cursinho popular tem um papel fundamental em democratizar o acesso ao ensino superior, permitindo que os alunos tenham contato com conhecimentos que de alguma maneira lhe foram negados, seja por fatores sociais ou políticas públicas ineficientes, podendo enxergar na educação uma oportunidade para melhores condições de vida. Para a coordenadora do cursinho Ágora, localizado em Icoaraci, Ana Paula Neves, os cursinhos populares são um instrumento de desenvolvimento social. “Quando a gente vê mais pessoas de bairros periféricos entrando na universidade, a gente entende também que isso é uma forma de ter um outro futuro para esses lugares, né? Que muitas vezes são ocupados por pessoas que não têm acesso à educação”

Todo o processo de vestibular, principalmente a comemoração por conseguir entrar na universidade, tem um significado cultural muito forte para os estudantes paraenses, que não se tem em outras regiões do país. Segundo Ana Paula Neves, a celebração da aprovação no ensino superior é festejada de uma maneira muito única e marcante, com os nomes dos aprovados sendo anunciados nas rádios, os calouros tomando banho de ovos e trigo, a Marcha do Vestibular tocando repetidamente pelas ruas, e isso ocasiona um impacto emocionante que não se consegue explicar, apenas se vivenciar. Essa tradição torna a trajetória dessas pessoas, vindas das camadas mais marginalizadas da sociedade, muito mais significativa.
Na visão de Tiffany e Ana Paula, cursinhos populares são uma forma de resistência da comunidade periférica, dando a possibilidade de conquistar espaços que por muito tempo foram e ainda são negados, assim como também são uma maneira de formação de laços identitário enquanto coletivo. Quando um indivíduo; estudante de cursinho comunitário; morador da periferia; que teve de conciliar os estudos com o trabalho para sustentar sua família, ingressa no ensino superior, isso não é apenas uma vitória individual e sim de todos. Dos familiares, dos vizinhos, dos professores, da periferia. Esses projetos demonstram que é possível superar as desigualdades e vencer através da educação popular, fortalecendo um senso de pertencimento que une as pessoas enquanto paraenses.
“Quando a gente vê mais pessoas de bairros periféricos entrando na universidade, a gente entende também que isso é uma forma de ter um outro futuro para esses lugares, né? Que muitas vezes são ocupados por pessoas que não tem acesso à educação, que não tem acesso não somente a essa educação formal pro ENEM, mas essa educação também crítica, emancipadora.” diz a coordenadora Ana Paula Neves.


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