
Entre a Alta Costura e a Economia do Fast Fashion
Mercado de brechó aponta expansão de tendência econômica e sustentável em Belém




Flashes de câmeras que buscam o melhor ângulo, perguntas de jornalistas atentos a cada detalhe e o glamour de vestidos e smokings produzidos por estilistas de todo o planeta. A primeira segunda-feira do mês de maio é marcada pelo maior encontro da indústria da moda, o Met Gala. Por uma noite, a escadaria do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, torna-se a passarela mais importante do mundo. Modelos e artistas da cultura pop sobem cada degrau trajando tudo de mais sofisticado na alta costura. O evento arrecada fundos para o Costume Institute, o departamento dedicado à história e preservação da moda dentro do Museu. Mas toda essa beleza e glamour tem um preço. E quem paga é o meio ambiente.
Segundo a Uniformmarket a indústria da moda é responsável por 10% das emissões globais de carbono, esse número é maior que todos os voos internacionais e o transporte marítimo juntos. E a moda rápida intensifica ainda mais esses números negativos, o consumo anual de água para as produções poderia atender às necessidades de mais de 5 milhões de pessoas. Além das toneladas de resíduos despejadas nos chamados “cemitérios de roupas”, como é o caso do deserto do Atacama, no Chile.
Na Amazônia, os holofotes se viram para marcas que promovem a biodiversidade. Criado em 2007, o Amazônia Fashion Week (AFW) atualmente já realizou 20 edições. Felícia Maia, coordenadora do curso de moda da Unama e do AFW, relata que o evento sobre moda surgiu da ideia de “valorizar não só as identidades, como as matérias-primas amazônicas”. Para a coordenadora, a sustentabilidade é possível através do uso de recursos da própria flora amazônica, como é o caso das fibras tururi e malva, ambas nativas. Felícia Maia relata, também, o uso do caroço do açaí para a confecção de joias. Para a professora, “o uso de matérias-primas que vêm da floresta fazendo girar essa bioeconomia pode ser um grande futuro para a moda”. Essa prática luta diretamente contra um dos modelos de negócio que cresce diariamente, o Fast Fashion.
Fotos: Amazônia Fashion Week
O nome não é por acaso, o termo, que em tradução direta é moda rápida, foi dado pelo The New York Times em 1990 quando a empresa Zara chegou em Nova York com um novo objetivo, produzir as suas peças de roupa em apenas 15 dias. A proposta se tornou vantajosa por ter um baixo custo de produção e por focar nas tendências atuais. Empresas como Shein e H&M também aderiram a prática e se tornaram símbolos do estilo que mobiliza a lógica consumista e efêmera da moda. Mas acelerar o processo e priorizar um número grande de peças tem um custo alto e direto no meio ambiente.
A jornalista e professora de Comunicação e Moda, Alda Cristina, afirma que os efeitos negativos vão além do meio ambiente, e que toda a indústria tem consciência desses efeitos: “a cadeia produtiva acumula escândalos de exploração de trabalhadores, baixos salários e condições degradantes [...] Os problemas ambientais causados por esse setor não são ‘acidentais’, mas endêmicos: quanto melhor for o desempenho financeiro do Fast Fashion, piores serão os danos ao planeta”.
Como alternativa a toda essa indústria, em 2014, um novo termo surgiu entre os apaixonados pelo mundo da moda. Unindo a economia circular com o pensamento sustentável, deu-se início a indústria da moda circular. Para esse modelo de negócio a preservação da biodiversidade é uma das preocupações fundamentais.

A ECONOMIA CIRCULAR
A ONG Fundo Mundial Para a Natureza, popularmente conhecida como WWF, propaga a ideia que a economia circular é um modelo econômico capaz de reduzir os impactos nocivos ao meio ambiente, derivados de um consumo ostensivo. O WWF reforça que a circularidade de peças provém do processo de customização/reparo, aquisição de itens de segunda mão, o ato de emprestar bens e a destinação correta desses produtos. Pensar em lógicas de consumo que não o linear molda todo o processo de extração e destinação de recursos.

Conforme a Ellen Macarthur Foundation, o correspondente a um carro de caminhão de lixo em roupas é queimado ou enterrado em aterros sanitários a cada segundo. Para a instituição que nasce a partir da premissa da economia circular, o futuro da indústria têxtil precisa estar associada à conservação e sustentabilidade do planeta, dada a finitude dos recursos naturais. Inger Anderson, diretora executiva da principal autoridade relacionada ao meio ambiente no mundo, o Programa das Nações Unidas Para o Meio Ambiente (PNUMA), também reconhece que o atual mercado da moda agrava a crise planetária e acaba por contribuir com a crise climática.
Fotos: Danique Veldhuis

Brechós dão vida a Economia Circular e aos pequenos negócios

Entre as passarelas da alta costura, e as calçadas de uma vida diária, as peças de roupas são um ponto fundamental na vida de qualquer pessoa. Para cada uma a escolha diante do armário e as combinações na frente do espelho pode ter um objetivo diferente: classe, poder, respeito, sensualidade, leveza ou conforto, cada roupa transmite uma mensagem. Por isso a hora de comprar uma nova peça se torna cada vez mais complexa diante de tantas opções.
Algodão ou linho? Com estampa ou só cor? Essa marca ou aquela? As dúvidas em cada compra só aumentam, e com o mercado digital, as tendências se tornam mais rápidas e difíceis de se acompanhar. No meio dessa incessante produção fashion, a indústria da moda busca a anos formas de facilitar esses processos, na maioria das vezes priorizando a praticidade no lugar da qualidade.
Fazer reparos ou mesmo propor novas identidades à peças já usadas (upcycling) são modos de aumentar a circularidade de itens e, por consequência, o seu uso. A moda circular propõe, então, uma nova visão “do se vestir”. Uma maneira diferente de enxergar a relação de cada um com o ato de adquirir e também de repassar o que é tão caro no mundo hodierno, as roupas. Para Felícia Maia, o slow fashion (moda lenta) – no qual os brechós são tidos como fundamentais – “é uma forma de produção em menor escala, usando muita manualidade, usando reaproveitamento têxtil, o upcycling, e com isso, há a formação de um nicho de mercado, ou seja, pessoas que valorizam, [...] manualidades…”.
Os brechós são pequenos negócios que congregam a lógica da economia circular. Dados do Sebrae apontam que em 2021, 118.778 brechós estavam ativos no país. O Conselho Federal de Administração, em 2024, pontuou que o crescimento de brechós e de plataformas online de segunda mão é mais veloz do que o mercado tradicional. Em Belém, a presença desses empreendimentos também é notável. Segundo dados do Sebrae Pará, em 2025, 132 brechós regularizados podiam ser encontrados na cidade.
Além de promover a sustentabilidade, lojas de artigos de segunda mão impulsionam o acesso às peças. Lis Cristina, dona de brechó em Belém, entende que a moda é linguagem e que, a partir dela, é possível que cada pessoa expresse e comunique a sua própria origem e identidade. A empreendedora compreende, também, a importância da periferia consumir artigos de grife: “eu penso muito em peças de grife para pessoas da periferia, porque eu acredito que a moda seja para pessoas da periferia”, pois segundo ela, são justamente essas pessoas que ajudam na confecção desses produtos. Consumidora de brechó desde criança e, atualmente, frequentadora assídua, Lara Rocha pontua o custo acessível de peças que esses espaços proporcionam. A compradora afirma que “A pessoa gasta cem reais numa calça no shopping, sendo que tu pode comprar, tipo, umas vinte peças de roupa num brechó”. Para ela, consumir em brechós é muito mais vantajoso.
Fotos: Lis Cristina
No mundo da moda, "a sustentabilidade é o imperativo, é uma necessidade", afirma Felícia Maia. Para além disso, a professora articula que “há necessidade de se repensar os processos, de reutilizar materiais, de utilizar matérias-primas menos danosas ao ambiente, passou a ser realmente um imperativo, e hoje diante das crises climáticas, diante dos grandes problemas dos lixões que se acumulam nas cidades, a sustentabilidade passou a fazer parte do dia-a-dia da indústria da moda”.

Reportagem
Rayane Ferreira
Joaquim Campelo
Design
Flávio Ramos
Joaquim Campelo
Orientação
Julieth Paula










